Mídia e Sexualidade na Educação Infantil

Blog de carlosoliveira :A SOCIEDADE DO SÉCULO XXI, Mídia e Sexualidade na Educação Infantil

"refletindo sobre a atuação da indústria cultural e a construção da identidade de gênero na educação infantil"

*por Acúrsio Esteves

Introdução

Diferente do que se pensava há algumas décadas atrás, a criança em nosso contexto social desde cedo estabelece vinculação direta do seu cotidiano com situações de experiências ligadas ao desenvolvimento da sexualidade. A profusão e diversidade de informações aliadas à permissividade gerada talvez pelo desejo da negação do preconceito e a vontade de fazer diferente da experiência vivida, faz com que a família a escola e a sociedade no afã de acertar, muitas vezes se confundam e por extensão às próprias crianças na construção da sua sexualidade.

A nossa história de vida comporta uma visão pouco nítida quando não negativa da sexualidade, independente de gênero ou classe social. A grande maioria das pessoas, incluídos aí profissionais de educação, percebe o comportamento sexual como algo obscuro, pois, tiveram base da construção da sua sexualidade, os estigmas de uma sociedade preconceituosa. Este comportamento, em parte significativa, é fruto da cultura judaico-cristã, na qual o sexo é exclusivamente destinado à reprodução e aceito apenas dentro do casamento. Essas pessoas não conseguem identificar este fator negativo em suas vidas e muitas vezes solidificam o conceito de relações sexuais como uma coisa vergonhosa.

Aliás, o primeiro documento de referência do nosso país, a Carta de Caminha, inicia a nossa história confirmando este preconceito até hoje em voga:

"Eram pardos, todos nus, sem coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas. Nas mãos traziam arcos com suas setas. Vinham todos rijamente sobre o batel; e Nicolau Coelho lhes fez sinal que pousassem os arcos. E eles os pousaram". ..."então estiraram-se de costas na alcatifa, a dormir, sem buscarem maneira de encobrir suas vergonhas, as quais não eram fanadas; e as cabeleiras delas estavam bem rapadas e feitas".(BRASIL,1500)

Segundo Negrine (1994), "quando a criança chega à escola, traz consigo toda uma pré-história, construída a partir de suas vivências, grande parte delas através da atividade lúdica" ..."é fundamental que os professores tenham conhecimento do saber que a criança construiu na interação com o ambiente familiar e sociocultural, para formular sua proposta pedagógica".

Nesta bagagem de conhecimento e nesta proposta pedagógica deverá estar contemplado, é claro, a plena construção da sexualidade. Os professores, que muitas vezes ocupam o lugar vago de mãe ou pai, são por excelência formadores de opinião e um modelo a ser seguido. A sua contribuição positiva ou negativa na formação da identidade sexual dos seus alunos está intimamente ligada a sua forma de conduta e ação no cotidiano sendo assim, a adoção por estes profissionais de uma postura repressiva, conformista ou emancipatória será sem dúvida por eles assimilada. Um grande obstáculo, porém, para este acerto é uma questão de linguagem: enquanto o professor dialoga na velha roda de amigos o aluno o faz na internet, na sala de bate papo... on-line. Nada que não se supere.

Para ter uma melhor compreensão e trabalhar com a sexualidade infantil é necessário que o professor repense e avalie a sua própria sexualidade, seus valores e a forma como age dentro do processo educacional. Esta reflexão sobre os seus princípios, remete à consciência das suas atitudes, dos conceitos e preconceitos que possui em relação ao sexo. Como os professores favorecerão a construção da sexualidade de seus alunos se não forem desafiados a repensarem a sua?

Na perspectiva de compreender o comportamento erotizado da criança na educação infantil, começamos a refletir sobre as vivências corporais e comportamento sexual das crianças nesta faixa etária, e foi inevitável estabelecermos uma relação direta entre a indústria cultural e tal fenômeno. Neste contexto, a mídia, principalmente a radiofônica e a televisiva, determina como modelo ideal um corpo perfeito e um comportamento que destaca a sexualidade exacerbada, através de uma valorização excessiva da beleza física, da sedução e da sensualidade, tendo como objeto principal o consumo. Este é o modelo feminino. O modelo masculino sugere um comportamento machista caracterizado pela violência e o menosprezo pela mulher. Estes estereótipos remetem as pessoas a um modelo ideal e exclui todos que não se enquadrarem no citado perfil. Inclusive as crianças. A análise de como este fenômeno se instala na educação infantil e a busca de solução para o problema são as questões norteadoras desta reflexão.

Gênero. Uma Identidade em Formação

A abordagem que daremos neste trabalho sobre a formação de gênero, pressupõe uma origem não essencialista, cujo discurso argumenta "uma natureza sexual universal e as diferenças marcadas pelo aparato biológico". (RIBEIRO, 2003). Acreditamos numa formação de gênero de origem sócio-cultural., onde a família, a escola, a igreja e a sociedade como um todo moldam a formação da sexualidade do sujeito. Na nossa sociedade as meninas ainda são preparadas, salvo raras exceções, para exercerem um papel de coadjuvante do homem: "por traz de um grande homem, tem sempre uma grande mulher" ( POPULAR). Elas podem, e às vezes devem demonstrar fragilidade e chorar. Alíás, elas são "treinadas" para usarem estas duas últimas características como arma de sedução. Têm também lugar de destaque no rol de características desejáveis para elas a beleza, a passividade, a delicadeza dos modos, a afeição às coisas do lar (prendas domésticas), o desinteresse sexual, a simplicidade, a fidelidade e a submissão ao homem. Esta última vitima milhões de mulheres cristãs praticantes, pois, textualmente a Bíblia ensina como modelo de comportamento feminino:

Que a mulher aprenda em silêncio, com total submissão. A mulher não poderá ensinar nem dominar o homem. I Timóteo 2:11-12. O marido é a cabeça da mulher, como também Cristo é a cabeça da igreja. Do mesmo modo que a igreja é submissa a Cristo, assim também as mulheres sejam em tudo aos maridos. - Efésios 5:22-24. Multiplicarei grandemente os teus sofrimentos e a tua gravidez; darás à luz teus filhos entre dores; contudo, sentir-te-á atraída para o teu marido, e ele te dominará. Gênesis 3:16 (Bíblia Sagrada, 1969).

Por outro lado, os meninos ainda são vítimas de uma cultura que valoriza o estereótipo masculino segundo o qual homens não choram, não demonstram sentimentos, são namoradores, isto é, estão sempre disponíveis e aptos para o sexo; são "fortes" em contraposição às meninas "fracas", brincam com armas e tem que ser "espertos" (lei de Gerson?), competitivos e corajosos. Estas características desejáveis no menino justificam plenamente a declaração de Júnior, 20, da dupla Sandy e Júnior ao periódico Isto É Gente de julho de 2004: "Beijo na boca desde os 6 anos. Foi com uma amiguinha da família. Sempre fui terrível", afirma o cantor, enquanto a irmã Sandy, carrega uma aura de pureza e virgindade, sob constante vigilância paterna pois, "toda donzela tem um pai que é uma fera" (POPULAR).

Estes tipos de comportamento que definem os papeis sexuais na sociedade são reforçados por desenhos animados, vídeos-game, filmes e um sem número de super-heróis que banalizam e inocentam tais atitudes ao mesmo tempo em que as sacraliza. Estes são comportamentos esperados e até mesmo cobrados neles. No decorrer da vida, uma simples falha (sexual ou não) pode desmoronar este castelo e originar uma série de conflitos, muitas vezes difíceis de sanar.

A forma pela qual fomos educados é decisiva para a construção da nossa identidade sexual, pois, aprendemos a agir baseados nos parâmetros tidos como aceitáveis para os indivíduos do sexo masculino e feminino. Desde a mais tenra idade, a divisão de tarefas e responsabilidades no próprio lar, juntamente com as nossas experiências sexuais, direcionam a uma educação sexista. Esta construção quando bem orientada é fundamental para que nos reconheçamos como homem ou mulher e definamos a nossa orientação sexual sem traumas, insegurança, e com respeito às diferenças. A estas diferenças adquiridas e advindas da educação formal ou não, distintas para crianças de sexos diferentes no mesmo ambiente social chamamos de gênero. O padrão de gênero pressupõe a construção de uma identidade sexual baseada em hábitos culturais, norteados pela predominância de um modelo social seja ele conservador ou libertário, machista ou feminista, anárquico ou democrático ou ainda as suas várias combinações.

Desta forma concordamos com Scott 2004, na afirmação de que o entendimento de gênero reflete "uma categoria social imposta sobre um corpo sexuado", que no nosso caso, reflete uma sociedade delineada por um perfil patriarcal, patrilinear e machista. O conceito de gênero, portanto, se refere a um sistema de papéis e relações entre homens e mulheres, construído por meio de um processo permanente e que não é igual nas diversas culturas; irá diferir de uma sociedade para outra e pode ser modificado, dependendo da época. (AZEVEDO et. al.)

No caso da escola é urgente uma tomada de posição quanto à orientação a ser dada aos seus alunos. Neutralidade é conformismo, compactuação com o modelo dominante. É a reprodução deste modelo perverso, capitalista, neo-liberal, que vitima as nossas crianças com uma orientação preconceituosa onde ela, seja menino ou menina, será sempre a maior prejudicada. A criança como ser em construção, necessita de orientação adequada e cuidados especiais em casa e na escola, para o desenvolvimento sadio da sua sexualidade que deve ser oportunizado de forma natural e através de atividades lúdicas próprias do seu universo tendo a busca do prazer, objetivo maior das atividades humanas, como foco principal. É, porém, reminiscente para nós a imagem de uma escola preconceituosa, associada à idéia negativa de obrigações pela qual se abandona os prazeres de uma vida livre para nela ser encarcerado anos a fio. Como trocar de sã consciência a liberdade pela prisão, o prazer pelo dever? O ser humano vive em busca dele toda a sua vida. Graciliano Ramos, (1945) em Infância nos coloca de forma pungente a chegada de uma criança a escola, onde caricatura o medo da perda de liberdade e sentimento de abandono sentido por algumas crianças no período da educação infantil.

Dias depois, vi chegar um rapazinho seguro por dois homens. Resistia, debatia se, mordia, agarrava se à porta e urrava feroz. Entrou aos arrancos, e se conseguia soltar se, tentava ganhar a calçada. Foi difícil subjugar o bicho brabo, sentá lo, imobilizá lo. O garoto caiu num choro largo. Examinei o com espanto, desprezo e inveja. Não me seria possível espernear, berrar daquele jeito, exibir força, escoicear, utilizar os dentes, cuspir nas pessoas, espumante e selvagem. Tinham me domado. Na civilização e na fraqueza, ia para onde me impeliam muito dócil, muito leve, como os pedaços da carta de A B C, triturados, soltos no ar.

A nossa escola historicamente preconizou o controle dos corpos e a vigilância do prazer das crianças através de padrões estereotipados de comportamento masculinos e femininos, seja através de disciplinas que trabalham diretamente com a questão do corpo como a Educação Física, Dança ou Teatro ou implicitamente nas repreensões do dia a dia: "Não fique pegando ‘nisso' que é feio!" (depois dizem que Deus fez tudo perfeito), "Homem não chora!" (e querem maridos sensíveis), "Uma mocinha não fica correndo por aí!" (e esperam mulheres independentes), "Menino brinca com menino e menina brinca com menina!" (depois reprimem e condenam a homossexualidade), dentre inúmeras outras censuras absurdas que se contradizem mais tarde. Quando às vezes já é tarde.

Interessante ressaltar que a mulher, seja mãe, madrasta, avó, babá ou professora, é a responsável histórica no nosso modelo de sociedade ocidental, pela educação da criança, e conseqüentemente, maior responsável pelo patriarcalismo e conseqüentemente pelo repasse da ideologia dominante que a inferioriza em relação ao homem. Paradoxo! As "infrações" mais ocorrentes das crianças na educação infantil que são duramente reprimidas com as frases populares comentadas acima e outras são: manipulação prazerosa da sua genitália, contacto corporal direto através de abraços e beijos (as vezes na boca), manipulação, comparação e ou exibição dos seus órgãos sexuais com os do(a) colega, demonstração de fragilidades como medo ou ansiedade (para os meninos), e curiosidades sobre as relações sexuais.

Estas expressões possuem várias formas de se apresentar: através de atos diretos, ou indiretamente quando embutidas em brincadeiras erotizadas ou não.

A brincadeira a pobre e a rica, "eu sou pobre, pobre, pobre de marré, marré, marré"..., por exemplo, apesar de não ser erotizada tem um forte cunho sexista onde a distribuição de profissões reflete e reforça o padrão dominante. Outras, de forma mais direta como brincar de médico, de pai e mãe, deixam mais clara a intenção do contacto físico e definição de papeis. Uma terceira categoria, mais explícita, que a meu ver só representa risco quando é praticada por crianças de faixas etárias díspares, traduz comportamento sexual explícito como troca-troca, pai e mãe (numa fase mais avançada), salada de frutas e foguinho. Ainda são formas de manifestação sexual, desenhos de figuras humanas com ênfase nos órgãos sexuais, quando não desenhos apenas dos próprios órgãos, músicas, piadas, jargões e ditados populares dentre outras expressões verbais e mímicas.

O respeito à individualidade e características próprias da faixa etária, bem caracterizadas por Freud na área sexual e Piaget na área de educação, nosso marco referencial, e a busca da eliminação de preconceitos e tabus sociais devem nortear este trabalho, que tem como ideal a parceria escola e família.

*O professor e pesquisador Acúrsio Esteves, é formado em Educação Física pela UCSal, com mestrado em Gestão de Organizações UNIBAHIA/UNEB e é professor da Secretaria Municipal de Educação de Salvador. Leciona também nas Faculdades Jorge Amado e Fundação Visconde de Cairu. Contactos: acursio1@terra.com.br

 

domingo 12 junho 2011 08:18



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